breves ensaios comparativos de estudos vicentinos
A informação sobre os autos foi recolhida de
http://www.gilvicente.eu/

Autos presentes na
Coplilaçam


Alma
Almocreves
Amadis de Gaula
Barcas, I parte – Inferno
            II parte – Purgatório
           III parte – Glória
Breve Sumário da
             História de Deus
Cananeia
Ciganas
Clérigo da Beira, Pedreanes
Cortes de Júpiter
Diálogo de uns judeus
           sobre a Ressurreição
Dom Duardos (versão 1)
Dom Duardos (versão 2)
Escudeiro Pobre, ou
              Quem tem farelos
Exortação da Guerra
Fadas
Fama

Feira
Físicos
Floresta de Enganos
Frágua de Amores
India
Inês Pereira
Juiz da Beira
Lusitânia
Miserere, (Oração)
Mistérios da Virgem, ou
                    Mofina Mendes
Nau de Amores
Pastoril Castelhano
Pastoril da Serra da Estrela
Pastoril Português
Pranto de Maria Parda
"Sermão" de Abrantes
Quatro Tempos
Reis Magos
Romagem de Agravados
Rubena
São Martinho
Sibila Cassandra
Sobre a Divisa da
            Cidade de Coimbra
Templo de Apolo
Triunfo do Inverno
Velho da Horta
Visitação
Viúvo


Fora da Copilaçam

Festa

Destruídos pelo
      Poder, Inquisição

(Perdidos)

Aderência do Paço **
Vida do Paço
Jubileu de Amores

(**) Identificado por Noémio Ramos,
como o Auto de Dom Florisbel.


Outros: Anónimos e...
(publicados tardiamente)

Capelas
Caseiro de Alvalade
Cativos ?, ou
        Dom Luís e dos Turcos
Dom André
Dom Fernando
Dom Florisbel, ou
       – Aderência do Paço **
Donzela da Torre
Enanos
Escrivães do Pelourinho
Escudeiro Surdo
Farsa Penada
Florença
Regateiras de Lisboa
Sátiros
Tragédia de Eneias e de
                     la Reyna Dido
Vicenteanes Joeira


GEIAGIL
Grupo de Estudo e Investigação da Arte de Gil Vicente
Teatro do Renascimento
 
      Quando um leitor estudioso se debruça sobre um autor do século xvi, a primeira coisa que tem de procurar fazer é a de compreender aquela época, o que implica sempre conhecer a sociedade, a sua cultura, a sua história, etc.. A arte e a literatura da época e a anterior são fundamentais, entendendo-se por esta literatura, também a filosofia, como pela sociedade se deve compreender as forças sóciais, os meios de produção e o desenvolvimento tecnológico… Afinal, tudo o que nos for possível conhecer da época, nunca o que lhe seja posterior, a não ser como confirmação de um percurso artístico, cultural, ou como comentário.

      Com a leitura de diversos autores que escreveram sobre as obras de Gil Vicente (a obra dramática de Gil Vicente), ficámos surpresos com as variadíssimas fantasias que sobre o primeiro dramaturgo se têm apresentado como se de trabalhos científicos se tratassem, incluindo muitas teses de mestrado e doutoramento.

      A apresentação de informação e conclusões baseadas em “saberes” publicados, como se de conhecimento de facto (de factos) se tratasse, organizado e coleccionado ao longo de gerações, evidencia um “saber” do tipo “escolástica”, onde o suporte do “conhecimento” se baseia sempre em citações encadeadas por outras citações devidamente autenticadas pelo número da página, nomes das obras e dos seus ilustres autores, aqueles autores anteriores que, pela sua antiguidade e estatuto social ocupado na sociedade do seu tempo, mais parecem dar credito àquela “sabedoria”, desenvolvendo-se assim a construção de “castelos de cartas” cheios de “saber instituído”, nos quais se vão apoiar as teses dos novos candidatos à ocupação dos lugares destacados nas instituições e assim alcançar um mais alto estatuto social e “cultural”, garantindo assim a sociedade (e as suas instituições), pelo sistema de vassalagem instalado desde a sua fundação medieval (ou numa das suas formas reproduzidas), tendo como suporte uma produzida suposta qualidade, uma permanente reprodução do seu universo cultural.
      Mas porquê estas palavras, porquê esta intervenção, porquê A Carta Aberta?

      Aqui mesmo, como já antes o fizemos, convém lembrar as palavras de Platão em Fedro, na resposta que o rei Egípcio dá a Theuth sobre a novidade da escrita: (275a)
          Essa descoberta, na verdade, pro­vocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória [da mente], porque confiados na escrita recordar-se-ão de fora, graças a sinais estranhos, e não de dentro, espontaneamente, pelos seus próprios sinais. Por con­seguinte, não descobriste um remédio para a memória [a mente - o pensamento], mas para a recordação. Aos estudiosos oferece a aparência de sabedoria e não a verdade, já que, rece­bendo, graças a ti, uma grande quantidade de conhecimentos [informação] sem necessidade de instrução [sobre a instrução ver em Fedro 278a], considerar-se-ão muito sabedores, quando são, na maior parte, igno­rantes; são ainda de trato difícil, por terem a aparência de sábios e não o serem verdadeiramente. Assim pois, [no dizer de Sócrates], mostraria muita ingenuidade quem acredi­tasse que os discursos escritos são algo mais do que um meio para fazer recordar a quem as sabe já, as matérias tratadas nesses escritos.
        [Sócrates] É isso precisamente, Fedro, o que a escrita tem de estranho, que a torna muito semelhante à pintura. Na verdade, os produtos desta permanecem como seres vivos, mas, se lhes perguntares alguma coisa, respondem-te com um silêncio cheio de gravidade. O mesmo sucede também com os discursos escritos. Poderá parecer-te que o pensamento como que anima o que dizem; no entanto, se movido pelo desejo de aprender, os interrogares sobre o que acabam de dizer, revelam-te uma única coisa e sempre a mesma. E, uma vez escrito, todo o dis­curso rola por todos os lugares, apresentando-se sempre do mesmo modo, tanto a quem o deseja ouvir como ainda a quem não mostra interesse algum, e não sabe a quem deve falar e a quem não deve. Além disso, maltratado e insultado injusta­mente, necessita sempre da ajuda do seu autor, uma vez que não é capaz de se defender e socorrer a si mesmo (275d-e).
        Como é evidente em qualquer dos nossos trabalhos de investigação, pouco nos importa o que outros autores já tenham afirmado sobre as questões em causa no nosso objecto de pesquisa, sobre a obra de Gil Vicente. O objecto da nossa investigação são as obras de Gil Vicente - cada um dos autos por si só e no seu conjunto, na sua evolução - o autor das obras e o seu tempo, este tempo, considerado em todos os aspectos, como atrás referimos. As investigações sobre este mesmo objecto, levadas a cabo por outros investigadores, não nos interessam senão quando nos colocamos na posição de um terceiro, de alguém que compara as investigações já existentes. E este tipo de actividade não tem para nós cabimento senão após completado o nosso trabalho, aquilo que constitui o objecto da nossa investigação.

      Fora do nosso objectivo, à margem do nosso objecto de trabalho, de pesquisa e análise da obra de Gil Vicente, podemos, contudo, estabelecer comparações, fazer análises sobre trabalhos antes desenvolvidos sobre o mesmo objecto que nos propusemos estudar. Este outro tipo de manifestação do nosso pensamento, pode ser feito em artigos à parte, mas também pode surgir como um comentário em quaisquer das nossas conclusões ou na apresentação das nossas investigações sobre o objecto em pesquisa e análise: mesmo quando apresentamos as nossas análises de qualquer obra de Gil Vicente, mas neste caso, apenas como comentários. Em artigos, ensaios e análises críticas, poderemos então tratar de outros autores que realizaram outras leituras de Gil Vicente.

      Como não temos acesso aos grandes meios de informação, nem aos meios de divulgação cultural, que apenas estão disponíveis às instituições e  aos detentores do ”saber” estabelecido, instituído, iremos publicando nos sítios Internet que nos estão disponíveis e, depois, enviando às diversas instituições nacionais, europeias e americanas, que estão de algum modo envolvidas com os estudos portugueses, aliás como já o fizemos quando, comemorando os 500 anos do primeiro auto de Gil Vicente escrito na língua portuguesa, enviámos mais de 70 exemplares a esse mundo, vicentino, os dois volumes então publicados (Julho de 2008): (1) Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II (2) Gil Vicente e Platão, Arte e Dialéctica, o Íon de Platão

      Deste modo asseguramos, para as gerações futuras, o impacto, ou melhor, a falta dele, que os nossos trabalhos tiveram nos mais diversos meios académicos e instituições culturais, nacionais, europeias e americanas (norte e sul), classificando assim tanto o nosso trabalho de investigação e análise, como classificando também, e talvez melhor, os vários receptores dos exemplares do nosso trabalho, indivíduos e instituições. Destes apresentamos, a sua listagem actualizada, nem sempre completa, quer através da Internet, quer ainda nas nossas publicações impressas subsequentes. 
 
      Esta Carta Aberta será sempre referida (e realizada uma ligação) em cada um dos nossos artigos, ensaio ou análise crítica, que sobre os estudos vicentinos iremos elaborando.
  Faro, Setembro de 2008.
Noémio Ramos